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Experiência da NASA na ISS aponta limiar de 0,67 g para a força muscular

Cientista observa ratazanas num cubo suspenso enquanto faz análise muscular em tablet, cenário espacial ao fundo.

O que acontece ao nosso corpo quando a gravidade praticamente desaparece?

Um ensaio da NASA com 24 ratos traz agora pistas surpreendentemente claras.

Num laboratório da Estação Espacial Internacional (ISS), uma equipa de investigação conseguiu clarificar um pormenor que pode vir a ser decisivo para futuras missões à Lua e a Marte - e, no limite, para a sobrevivência, a saúde e a capacidade de trabalho das tripulações: a partir de que nível de gravidade é que os músculos começam a perder desempenho e desde quando é que ainda funcionam de forma fiável. Neste estudo com ratos, esse limite revelou-se bastante nítido.

Uma pequena equipa de ratos, uma pergunta enorme

Para este experimento, a NASA e a agência espacial japonesa JAXA enviaram, no total, 24 ratos para a ISS. Já em órbita, os animais foram mantidos sob quatro condições distintas de gravidade:

  • Microgravidade (praticamente ausência de peso, como no orbitador)
  • 0,33 g (cerca de um terço da gravidade terrestre)
  • 0,67 g (aproximadamente dois terços da gravidade terrestre)
  • 1 g (gravidade normal da Terra, como referência)

O objectivo parecia simples, mas é, na prática, extremamente complexo: até que ponto a gravidade pode diminuir antes de os músculos deixarem de trabalhar bem? Até aqui, os especialistas conheciam sobretudo efeitos gerais - por exemplo, que os astronautas, em ausência de peso, perdem massa muscular e densidade óssea. Desta vez, a questão foi mais fina: haverá um valor-limite a partir do qual a força muscular cai de forma mensurável, mesmo quando o músculo ainda parece “normal” por fora?

O que realmente muda nos músculos no espaço

O centro da análise foi, acima de tudo, o músculo da barriga da perna sóleo (soleus), um típico músculo postural que, na Terra, está constantemente a contrariar a gravidade. Quando essa carga desaparece, é precisamente este tipo de músculo que reage com maior sensibilidade.

"Os investigadores concluíram: quando a gravidade desce abaixo de cerca de 0,67 g, a força muscular diminui de forma clara - mesmo que o músculo mantenha aproximadamente o mesmo tamanho."

Este ponto é crucial. Durante muito tempo, a atenção recaiu sobretudo na massa muscular: se o músculo encolhe, é sinal de alarme. O que se observou no espaço sugere que o desempenho pode degradar-se mais cedo. O padrão observado foi o seguinte:

  • A 1 g (nível da Terra), tudo se manteve estável - sem surpresa.
  • A 0,67 g, os ratos conseguiram, em grande medida, manter a força de preensão; a musculatura continuou a trabalhar de forma semelhante à da Terra.
  • A 0,33 g, o músculo quase não mudou de aspecto, mas a força medida diminuiu de forma marcada.
  • Em microgravidade, estes efeitos intensificaram-se: menos força e alterações no metabolismo muscular.

Em termos práticos, isto significa que o músculo nem sempre “desaparece” de imediato aos olhos - simplesmente passa a funcionar pior. Numa fotografia, as patas dos ratos pareceriam quase normais; num teste de força, falham mais depressa.

Porque é que dados de ratos são tão relevantes para astronautas

É evidente que ratos não são humanos. Ainda assim, o metabolismo muscular e ósseo destes animais é suficientemente semelhante ao nosso para oferecer indicações consistentes. Para a medicina espacial, estudos em animais são um passo intermédio essencial antes de se considerarem ensaios prolongados e potencialmente arriscados com pessoas.

Já se sabe que astronautas na ISS, sem treino intensivo, perdem por mês vários pontos percentuais de massa muscular e massa óssea. Por isso, o plano diário inclui até duas horas de exercício, com bicicletas ergométricas, passadeiras com sistemas de arnês e equipamentos de força que recorrem a vácuo em vez de pesos.

"O novo estudo sugere que existe uma ‘zona crítica’: acima de cerca de 0,67 g, a força muscular parece ser significativamente mais fácil de preservar do que abaixo desse valor."

Para o planeamento de Marte, este limiar é simultaneamente muito interessante - e inquietante.

A gravidade em Marte chega para manter os músculos fortes?

A gravidade em Marte é de cerca de 38% da terrestre, ou seja, aproximadamente 0,38 g. Isso coloca o planeta claramente abaixo do limiar de 0,67 g apurado no experimento. E levanta questões incómodas para missões de longa duração.

A conclusão dos investigadores é explícita: a gravidade natural de Marte, por si só, dificilmente será suficiente para proteger, a longo prazo, a função muscular dos astronautas. Quem viver lá durante meses ou anos arrisca perdas perceptíveis de força e resistência.

Ao mesmo tempo, há uma nuance importante: com menos gravidade, o corpo precisa, simplesmente, de menos força para se mover. Um músculo enfraquecido não tem de suportar a carga total da Terra. Ainda assim, o problema mantém-se - sobretudo no regresso. Quando a tripulação volta, a gravidade terrestre impõe-se “a sério”, e um corpo destreinado enfrenta muito mais dificuldade.

Como futuras equipas em Marte poderiam compensar

O estudo não serve apenas de aviso; também ajuda a apontar caminhos para contramedidas. Entre as ideias discutidas de forma intensa na área:

  • Programa de treino rigoroso: treino de força e resistência ainda mais exigente do que na ISS, ajustado à gravidade marciana.
  • Gravidade artificial: módulos habitáveis rotativos ou pequenas “centrífugas” onde os astronautas passam períodos expostos a gravidade mais elevada.
  • Estratégias nutricionais direccionadas: dieta rica em proteína, certos aminoácidos, vitamina D e outros nutrientes para estabilizar músculos e ossos.
  • Abordagens farmacológicas: substâncias que travem a perda muscular ou estimulem a construção de músculo - actualmente um campo de investigação muito activo.

Os dados recolhidos com ratos também indicam que, com menor gravidade, não muda apenas a força: altera-se igualmente o metabolismo dos músculos. As fontes de energia, enzimas e até a forma como os músculos utilizam açúcares e gorduras sofrem desvios.

Mais do que músculos: o que ainda tem de ser avaliado

Os investigadores sublinham que os músculos são apenas uma parte do desafio. Em viagens espaciais prolongadas, praticamente todos os sistemas do organismo são afectados. Por isso, estudos futuros deverão observar outros tecidos e funções de forma direccionada:

  • Ossos: a perda de densidade óssea aumenta o risco de fracturas - sobretudo na anca e na coluna.
  • Sistema cardiovascular: com menos gravidade, o coração trabalha menos contra o “peso”; adapta-se, mas no regresso à Terra é exigido de forma súbita.
  • Órgãos e metabolismo: fígado, rins e sistema imunitário reagem de forma sensível a alterações de carga e de radiação.
  • Cérebro e saúde mental: isolamento, confinamento, alterações do ciclo sono–vigília e exposição à radiação influenciam, a longo prazo, o humor e o desempenho cognitivo.

Assim, o experimento com ratos na ISS é, por assim dizer, uma peça do puzzle - mas uma peça que ajuda a delinear o contorno do quadro geral: sem contramedidas bem desenhadas, uma estadia longa em baixa gravidade vai remodelar o corpo, passo a passo.

O que o limiar de 0,67 g implica para nós

É particularmente interessante que o valor-limite encontrado fique entre a Lua e a Terra. A Lua tem apenas cerca de 0,16 g - ainda menos do que Marte. Para futuras bases lunares, o resultado é claro: para viver e trabalhar durante longos períodos, será indispensável um plano robusto de treino e de saúde.

É plausível imaginar que futuras estações ou bases venham a oferecer zonas com diferentes níveis de gravidade: áreas para vida quotidiana sob gravidade lunar ou marciana e áreas específicas de treino onde se gera, de forma artificial, algo mais próximo da gravidade terrestre. Tecnicamente, isto é exigente; do ponto de vista médico, pode compensar.

Ao mesmo tempo, este tipo de investigação ajuda a compreender melhor a perda muscular na Terra. Muitos mecanismos lembram o que ocorre em imobilização prolongada, idade avançada ou certas doenças. Medidas que protegem astronautas podem, mais tarde, beneficiar também doentes - por exemplo, protocolos de treino específicos, novos medicamentos ou estratégias nutricionais direccionadas.

O ensaio com ratos na ISS deixa uma mensagem nítida: o nosso corpo está mais finamente ajustado à gravidade da Terra do que parece. Uma redução para metade já pode ser suficiente para o desestabilizar de forma notória. Quem quiser dar o salto para a Lua ou para Marte terá de levar isto a sério - e garantir aos músculos, com antecedência, um plano alternativo.


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