Quem come camarões, mexilhões ou caranguejos já está, há muito, a ingerir microplástico. Um trabalho recente feito na Colômbia acrescenta um dado preocupante: em zonas costeiras muito contaminadas, estas partículas dão origem a nanoplástico ainda mais fino - e, de forma inesperada, certos caranguejos funcionam como verdadeiros moinhos biológicos. Estes fragmentos microscópicos podem depois acumular-se ao longo da cadeia alimentar e acabar em marisco que chega ao comércio europeu.
Um sistema costeiro altamente contaminado na Colômbia
O estudo decorreu no Golfo de Urabá, na costa caribenha da Colômbia. Em frente à cidade portuária de Turbo existem mangais urbanos que figuram entre os troços costeiros mais poluídos do planeta. Entre as raízes vêem-se sacos, garrafas e pequenos pedaços de plástico com brilho iridescente.
É aqui que vive o pequeno caranguejo-tambor Minuca vocator, um habitante típico de mangais tropicais. Estes animais escavam continuamente a lama, levam à boca porções ricas em sedimentos e separam daí matéria orgânica para se alimentarem. Tudo o que estiver escondido no solo segue para o aparelho digestivo - incluindo microplástico.
Um grupo de investigação da Universidad de Antioquia, da University of Exeter e do centro de investigação marinha CEMarin procurou perceber que papel estes caranguejos têm no ciclo do plástico. Os resultados foram publicados em dezembro de 2025 na revista científica Global Change Biology.
Ensaio num “laboratório” de mangal: plástico como alimento para caranguejos
Para o ensaio, os investigadores delimitaram cinco parcelas de 1 metro quadrado no mangal. Durante 66 dias, pulverizaram nessas áreas microesferas fluorescentes de polietileno, em vermelho e verde. Desta forma, tornou-se possível identificar com precisão, mais tarde, quais as partículas que provinham da experiência.
Ao fim de pouco mais de dois meses, a equipa recolheu a lama superficial e capturou 95 caranguejos. Em laboratório, analisaram amostras do sedimento, o trato digestivo e vários órgãos dos animais.
"Os caranguejos continham, em média, várias vezes mais microplástico do que o sedimento à sua volta - funcionam como concentradores de partículas de plástico."
A análise indicou que cada animal tinha várias dezenas de microesferas. A concentração no corpo era cerca de 13 vezes superior à do solo onde os caranguejos escavam.
Onde o plástico se acumula no corpo do caranguejo
As partículas apareciam sobretudo em três locais:
- na secção posterior do intestino
- no hepatopâncreas (um órgão equivalente, de forma simplificada, a uma combinação de fígado e pâncreas)
- nas brânquias
Isto mostra que o plástico não se limita a atravessar o intestino: também se deposita em órgãos ligados ao metabolismo e à respiração. Esse padrão facilita a transferência das partículas para predadores que se alimentam destes caranguejos.
De micro a nano: caranguejos como moinhos de plástico
A observação mais marcante foi esta: aproximadamente 15% das partículas de microplástico ingeridas já estavam fragmentadas, dentro do corpo, em pedaços ainda menores - nanoplástico. Estes fragmentos têm menos de um milésimo de milímetro e deixam de ser visíveis a olho nu.
O mecanismo ocorre por etapas:
- As peças bucais, robustas, cortam e esmagam as partículas.
- No estômago muscular, estruturas duras actuam como um conjunto semelhante a mós.
- Microrganismos no tubo digestivo atacam a superfície do plástico.
Como resultado, partículas ultrafinas regressam ao ambiente com as fezes e voltam a misturar-se no sedimento. Em apenas 14 dias, os nanofragmentos marcados tornaram-se mensuráveis no solo.
"Os seres vivos no mar não reagem apenas de forma passiva ao lixo plástico - transformam-no e, com isso, aceleram a sua distribuição no ecossistema."
Um pormenor adicional: nos exemplares fêmea, os investigadores observaram uma tendência para existir mais material triturado. A explicação provável é uma diferença no comportamento alimentar ou no tempo de permanência do alimento no intestino.
Nanoplástico - porque estas partículas são tão problemáticas
O microplástico já é considerado um problema ambiental grave. Os novos dados sugerem, porém, que o desafio mais persistente pode estar ainda abaixo dessa escala. O nanoplástico consegue ultrapassar barreiras que são impermeáveis a partículas maiores.
No organismo de animais marinhos, os nanofragmentos podem:
- atravessar a parede intestinal e chegar ao sangue
- penetrar nas células e desencadear respostas de stress
- alcançar órgãos sensíveis, como o cérebro ou as gónadas
Além disso, os plásticos incluem frequentemente aditivos como plastificantes, retardadores de chama ou corantes. Quanto mais pequenas forem as partículas, maior é a área total de superfície - e maior a possibilidade de estas substâncias se libertarem.
Do mangal ao prato
Os mangais funcionam como berçários para muitas espécies de peixe e crustáceos. Vários organismos que mais tarde aparecem no mercado como marisco passam a fase juvenil nestes emaranhados de raízes - incluindo em regiões das quais a Europa importa produtos do mar.
Se os caranguejos estiverem a produzir nanoplástico e a devolvê-lo à lama, esse material pode entrar, a partir daí, em:
- peixes juvenis que crescem ao abrigo dos mangais
- camarões e outros crustáceos que procuram alimento no sedimento
- bivalves e outros moluscos que filtram água e retêm partículas do plâncton
Com o tempo, estes organismos deslocam-se para águas costeiras, são capturados e chegam ao comércio como marisco. Estimativas citadas, por exemplo, pelo WWF apontam que um adulto ingere, em média, até cinco gramas de plástico por semana - uma parte através de produtos do mar.
Quão real é a exposição dos consumidores
Ainda não existem dados exactos sobre quanto nanoplástico está, em concreto, presente em camarões, mexilhões ou caranguejos que chegam ao nosso prato. Mas há um ponto claro: quando o animal é consumido inteiro - com intestino e órgãos - o risco potencial aumenta, porque é precisamente aí que se concentra a maior carga.
Em filetes de peixe sem pele, a carga tende a ser menor, já que muitas partículas ficam no intestino e nas brânquias. Com os mexilhões, a situação é diferente, porque são ingeridos por completo.
Plástico no mar: degradação lenta, dispersão rápida
No oceano, os plásticos fragmentam-se ao longo de séculos. Uma parte degrada-se com o sol e o movimento das ondas; outra acumula-se na costa - por exemplo, em mangais que actuam como autênticas armadilhas naturais. Nesse processo, formam-se em grande quantidade partículas de microplástico com menos de cinco milímetros.
O papel agora descrito para os caranguejos acrescenta mais um mecanismo: os organismos aceleram a passagem para a escala nano. Em décadas, garrafas transformam-se em partículas; e, a partir dessas partículas, a digestão pode gerar fragmentos minúsculos em poucos dias.
| Tamanho | Termo | Riscos típicos |
|---|---|---|
| > 5 mm | Macroplástico | Emaranhamento, ingestão por animais maiores |
| 0,001–5 mm | Microplástico | Ingestão via alimentação, acumulação em órgãos |
| < 0,001 mm | Nanoplástico | Entrada em células, transporte de contaminantes no organismo |
O que isto significa para regulação e consumo
O estudo colombiano não oferece uma recomendação simples para consumidores, mas deixa um recado inequívoco: mesmo que, no futuro, entre menos plástico no mar, o material que já lá está continua em circulação - e em formas cada vez mais pequenas.
Para governos e indústria, existem várias frentes possíveis:
- reduzir plásticos de uso único que, com frequência, acabam por ser depositados nas zonas costeiras
- reforçar a gestão de resíduos em cidades portuárias e deltas fluviais
- implementar sistemas de filtragem e limpeza para reter plástico ainda nos rios
- endurecer regras relativas a aditivos em plásticos que possam chegar ao mar
Para quem consome, a principal lição é esta: quanto menos plástico entra no sistema no início, menos acabará mais tarde na alimentação. Evitar marisco proveniente de regiões com níveis comprovadamente elevados de poluição por plástico, ou escolher produtos certificados, pode limitar a exposição individual - embora, por agora, não seja possível eliminá-la por completo.
Termos como microplástico e nanoplástico parecem abstractos, mas no fim traduzem-se em coisas muito concretas: o cocktail de camarão, a massa com mexilhões, a sopa de peixe nas férias. O estudo na Colômbia mostra como até pequenos animais na lama podem tornar-se actores discretos de um problema global - e, ao mesmo tempo, ligações silenciosas entre o lixo costeiro e o que comemos no dia-a-dia.
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