Os agricultores sempre detetaram o stress nas culturas da mesma forma: a olho. Quando as folhas de alface enrolam ou os tomateiros ficam tombados, é sinal de que algo não está bem. O problema é que, quando isso se torna visível, a planta já pode estar em dificuldades há vários dias.
Agora, um sensor do tamanho de uma unha alterou por completo esse calendário. Implanta-se no caule e lê diretamente a química interna, assinalando stress ácido ou stress salino quando as folhas ainda parecem saudáveis.
Sensor dentro das plantas
O dispositivo chama-se MLIPBS, sigla de machine learning-enabled implantable plant biomarker sensor (sensor implantável de biomarcadores vegetais com aprendizagem automática). Não é maior do que uma unha e fica encaixado no pecíolo - o pedúnculo fino que liga a folha ao resto da planta.
O desenvolvimento foi liderado pelo professor Yibin Ying, da Zhejiang University (ZJU), em Hangzhou, com Shenghan Zhou como primeiro autor. A partir do pecíolo, o sensor acompanha três sinais químicos associados ao stress vegetal e envia as medições por Bluetooth.
A investigação foca-se num problema cada vez mais grave. Solos ácidos e o aumento da salinidade do solo reduzem as colheitas em grande parte do mundo, enquanto as fases iniciais permanecem invisíveis para um agricultor no campo.
Dobrado como origami
O sensor começa por ser uma única folha muito fina, cortada a laser, e depois é dobrado para formar uma estrutura em U ou em M. Pecíolos direitos recebem a forma em U. Pecíolos irregulares ou curvos ficam com a forma em M.
A dobragem dá ao dispositivo aderência suficiente para se manter fixo sem escorregar, e também a flexibilidade necessária para acompanhar o crescimento da planta.
A equipa quantificou a força necessária para o sensor atravessar o tecido durante a inserção. A alface oferece pouca resistência, o tomate exige um pouco mais, e a Aloe vera - mais rija - requer a maior força.
Mesmo assim, as três forças ficaram confortavelmente abaixo do limite a partir do qual o próprio dispositivo poderia deformar-se, o que permite inserir o mesmo microchip nas três plantas sem o partir.
Três pistas químicas
Já dentro do pecíolo, o sensor mede em simultâneo três parâmetros: peróxido de hidrogénio, iões potássio e pH. Cada um deles altera-se de forma característica quando a planta entra em stress.
Quando surgem condições de solo salino ou de acidez elevada, a planta aparenta inundar os tecidos com moléculas reativas de oxigénio. O peróxido de hidrogénio é uma delas, como descreve uma revisão sobre a química do stress nas plantas.
O potássio oscila à medida que as células tentam manter o equilíbrio. O pH local desvia-se antes de aparecerem danos visíveis. Três elétrodos distintos, integrados no mesmo dispositivo, captam estes sinais.
Em alface, tomate e Aloe vera saudáveis, as medições mantiveram-se estáveis ao longo de 24 horas de monitorização contínua. De seguida, a equipa inundou o solo com água salgada concentrada.
Em todas as plantas houve uma subida imediata do peróxido de hidrogénio, uma alteração no potássio e um aumento gradual do pH nos tecidos. Muitas horas depois, as folhas continuavam com aspeto normal.
Ensinar o sistema a interpretar
Uma sequência de números produzida por um sensor, por si só, não equivale a um diagnóstico. Para transformar os sinais em algo prático, os investigadores introduziram oito horas de dados de 60 plantas num sistema de aprendizagem automática chamado LightGBM.
O treino incluiu seis condições: plantas saudáveis, duas intensidades de stress ácido, duas intensidades de stress salino e um cenário combinado, com stress ácido e salino a afetarem a planta ao mesmo tempo.
O stress ácido foi o mais simples de identificar - o modelo acertou em mais de 97% dos casos. Já o stress salino e o cenário combinado foram mais difíceis, ficando na faixa de 84–89%. A precisão global atingiu 90.5%.
A distinção mais exigente foi separar o stress combinado do stress exclusivamente salino, porque as assinaturas químicas se sobrepõem. Numa implementação real numa fábrica de plantas, o sistema atingiu 100% de precisão.
Um aviso com 48 horas
Até este estudo, nenhum dispositivo vegetal contínuo e vestível tinha conseguido identificar o tipo e a intensidade do stress em plantas que ainda pareciam saudáveis. O MLIPBS conseguiu fazê-lo em oito horas após o estímulo.
Nos ensaios, a alface só mostrou murchidão visível no dia quatro. O tomate manteve a aparência até ao dia sete. A Aloe vera permaneceu com aspeto normal durante dez dias completos. O sensor, porém, detetou o problema no dia um.
À primeira vista, pode parecer que inserir um dispositivo com arestas num caule iria danificar a planta. No entanto, depois de o sensor ser retirado, a pequena ferida começou a fechar-se em poucas horas.
Ao longo dos 30 dias seguintes, formou-se uma faixa de tecido de calo - o equivalente vegetal de uma crosta - sobre a perfuração, sem sinais de apodrecimento ou escurecimento. As plantas mantiveram a mesma área foliar, níveis de clorofila e teor de azoto quando comparadas com controlos não intervencionados.
Além disso, a equipa submeteu o sensor a variações de humidade, de luz e a impactos físicos pensados para simular condições de campo, e o sinal manteve-se estável.
Intervenção mais cedo nas culturas
De acordo com uma avaliação global recente, os solos afetados por sal cobrem atualmente cerca de 10% da área terrestre do planeta, e os solos ácidos e salinos representam todos os anos milhares de milhões em perdas de produtividade.
Quando uma cultura já apresenta danos visíveis, a planta pode ter estado sob stress durante dias. Muitas das correções mais simples - lavar com água de rega, ajustar a fertilização, corrigir o pH - funcionam melhor quando aplicadas cedo.
O contributo deste trabalho é claro: um único dispositivo a viver dentro da planta, capaz de recolher múltiplos sinais químicos ao mesmo tempo e indicar exatamente que tipo de problema está a começar.
Com esta vantagem temporal, a agricultura de precisão pode passar de suposições reativas para cuidados preventivos. O próximo passo da equipa é incorporar o modelo treinado diretamente na placa de circuito do sensor, para que os alertas de stress possam chegar ao telemóvel do agricultor sem uma etapa laboratorial separada.
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