O bloqueio do Estreito de Ormuz paralisa rotas cruciais de petróleo e gás - mas, na Europa, alguns países ficam sob pressão muito maior do que outros.
Desde o final de fevereiro, uma das artérias energéticas mais importantes do planeta está, em grande medida, cortada: o Irão bloqueia o Estreito de Ormuz, por onde normalmente circula uma fatia considerável do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito. Novos dados de institutos de investigação de Viena e de Delft mostram agora quão desigual é o impacto na Europa - e por que motivo a Alemanha, por enquanto, atravessa a situação relativamente melhor.
Passagem-chave no Golfo Pérsico praticamente paralisada
O Estreito de Ormuz faz a ligação entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. Em condições normais, passam ali todos os dias dezenas de petroleiros e navios de GNL, sobretudo com cargas provenientes do Catar, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos. Desde o início da guerra contra o Irão, esse fluxo quase secou.
O efeito sente-se até na Europa. O Supply Chain Intelligence Institute (Viena), o Complexity Science Hub e a Universidade de Delft analisaram dados comerciais e estimaram que países europeus dependem mais de bens oriundos dos Estados do Golfo que, neste momento, saem apenas de forma limitada - ou nem chegam a sair.
"A duração do bloqueio decide se fica por atrasos - ou se cadeias de abastecimento inteiras começam a descarrilar."
O autor do estudo, Stefan Thurner, alerta: se a interrupção se prolongar por mais de quatro semanas, podem surgir reações em cadeia. A falta de energia pode amplificar problemas na produção industrial, no sector dos transportes e nos preços para o consumidor.
Itália, Bélgica, Reino Unido: o trio mais exposto
A avaliação estabelece uma hierarquia clara de vulnerabilidade na Europa. No topo surgem Itália, Bélgica e Reino Unido, com uma dependência particularmente elevada do Golfo em vectores energéticos essenciais.
Itália: o GNL como calcanhar de Aquiles
Entre os países da UE, a Itália apresenta o maior valor directo de importações dos Estados do Golfo afectados pelo bloqueio: 9,8 mil milhões de dólares norte-americanos por ano. Uma parte substancial corresponde a energia:
- Cerca de 4,4 mil milhões de dólares norte-americanos por ano em gás natural liquefeito (GNL) do Catar
- Aproximadamente 3,2 mil milhões de dólares norte-americanos em propano
Nos últimos anos, a política energética italiana reforçou fortemente a aposta no gás. O GNL do Catar estava destinado a substituir fornecimentos russos. É precisamente esta reorientação que agora se torna um problema: se Ormuz continuar bloqueado, podem surgir estrangulamentos nas importações de gás - e, com isso, pressão sobre os preços da electricidade e sobre a indústria.
Bélgica: plataforma para gás e diamantes
A Bélgica destaca-se não apenas como consumidora, mas sobretudo como nó logístico. Através do porto de Zeebrugge entram anualmente na UE cerca de 5,8 mil milhões de dólares norte-americanos em GNL do Catar. Esse gás é depois redistribuído, o que faz do país uma espécie de porta de entrada para outros mercados europeus.
Acresce ainda o papel particular de Antuérpia no comércio de diamantes. Uma parte relevante das transacções com os Emirados Árabes Unidos passa pelo bairro dos diamantes na cidade. Se a navegação deixar de ser viável ou se tornar demasiado arriscada, um sector inteiro sofre - desde serviços financeiros até oficinas artesanais altamente especializadas.
Reino Unido: o maior risco europeu
Em valores absolutos, o estudo coloca o Reino Unido no primeiro lugar: 12,9 mil milhões de dólares norte-americanos em importações anuais provenientes dos Estados do Golfo em causa. Deste total, cerca de 5,9 mil milhões de dólares norte-americanos correspondem a produtos de gás do Catar.
Embora Londres tenha acesso a energia do Mar do Norte, há anos que também aposta em terminais de GNL. O bloqueio atinge esse modelo com força. Fornecimentos alternativos mais caros podem rapidamente reflectir-se nas facturas dos consumidores britânicos.
Alemanha e França: mais diversificação, mas sem tranquilidade
Comparativamente, os números da Alemanha parecem, à primeira vista, mais contidos. O país importa bens no valor de cerca de 5,7 mil milhões de dólares norte-americanos por ano dos Estados do Golfo mais afectados. A França situa-se acima, com aproximadamente 8,1 mil milhões de dólares norte-americanos, mas também apresenta uma diversificação relativamente ampla.
Comércio da Alemanha com os Estados do Golfo
Ao olhar para o detalhe, percebe-se que a Alemanha compra aos Emirados Árabes Unidos bens no valor de 4,2 mil milhões de dólares norte-americanos. Trata-se sobretudo de:
- Navios e iates
- Equipamento industrial
- Componentes técnicos
Do ponto de vista energético, a dependência directa é menor. Do Catar chegam apenas cerca de 0,6 mil milhões de dólares norte-americanos em importações por ano, principalmente propano e gases especiais. Depois do ataque russo à Ucrânia, a Alemanha abriu fontes adicionais de GNL na Noruega, nos EUA e noutras regiões. Essa dispersão reduz o impacto imediato do bloqueio de Ormuz.
Ainda assim, o Governo federal não pode ficar descansado. Se a Bélgica e a Itália, enquanto centros energéticos, vacilarem, os efeitos indirectos serão difíceis de evitar: mercados mais apertados, preços mais elevados e volumes de fornecimento incertos acabam por afectar também empresas alemãs.
França aposta mais em ligações ao Golfo
A França importa, no total, mais bens da região do que a Alemanha, mas também distribui o risco por vários parceiros. Além dos Emirados, a Arábia Saudita e o Catar têm um peso superior. Nos últimos anos, o Governo em Paris aprofundou deliberadamente relações políticas e económicas no Golfo - o que agora aumenta a inquietação caso o bloqueio se prolongue.
Frente diplomática contra Teerão
Em paralelo com a pressão económica, cresce a dimensão política. Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Países Baixos e Japão condenaram duramente a actuação iraniana numa declaração conjunta. Exigem que Teerão ponha fim à suspensão de facto da passagem no estreito.
"Os países sinalizam que, se necessário, também querem contribuir para garantir as rotas comerciais - se preciso, com missões navais."
No documento, são referidas ameaças, minas, ataques com drones e mísseis, bem como outras medidas com que o Irão tem condicionado a navegação. Os signatários sublinham a disponibilidade para participar em missões de protecção adequadas, de modo a devolver uma passagem segura a petroleiros e cargueiros.
Apelo a um moratório para ataques
Um ponto chama a atenção: os EUA e Israel - cujos ataques a alvos iranianos desencadearam o conflito mais recente no Golfo - não são mencionados na declaração. Em vez disso, o foco recai numa exigência mais ampla: um moratório imediato para ataques a infra-estruturas civis, em particular instalações de petróleo e gás.
Os signatários invocam o direito internacional e falam de pilares fundamentais para a prosperidade global e a segurança internacional. A Agência Internacional de Energia já reagiu e autorizou a libertação coordenada de reservas estratégicas de petróleo. O objectivo é amortecer picos de preços e acalmar os mercados.
Além disso, vários governos estão a explorar conversações com produtores alternativos. Com maiores volumes de produção na América do Norte, em África ou no Mar do Norte, seria possível compensar pelo menos parte das falhas provenientes do Golfo - desde que existam capacidade de transporte e terminais suficientes.
Como um bloqueio prolongado pode afectar a Europa
Muitos efeitos só surgem com atraso. O petróleo que hoje não é expedido fará falta dentro de algumas semanas em refinarias europeias. O GNL que não chega a Zeebrugge pode, num inverno frio, vir a faltar de forma súbita nos armazenamentos.
Algumas consequências possíveis de perturbações prolongadas:
- subida dos preços grossistas do gás e da electricidade
- aumento de custos para a indústria intensiva em energia (química, aço, vidro)
- maior tensão na capacidade de refinação e nos preços dos combustíveis
- dependência crescente de alguns fornecedores de substituição
Para a Bélgica e a Itália, ameaça-se um problema duplo: não só enfrentam preços mais altos, como podem perder temporariamente o papel de centros energéticos fiáveis. Isso pode corroer a confiança e afastar investidores.
Porque o Estreito de Ormuz é tão sensível
O estreitamento entre o Irão e Omã tem, no ponto mais estreito, pouco mais de 50 km de largura. Uma parte significativa do comércio marítimo mundial de petróleo e de gás natural liquefeito passa por este gargalo. Especialistas estimam que quase um quinto do transporte global de petróleo atravessa Ormuz; no GNL, a quota do Catar é ainda mais elevada.
As rotas alternativas são limitadas. Existem alguns oleodutos e gasodutos no lado árabe em direcção ao Mar Vermelho, mas a capacidade não chega para absorver toda a falha. Além disso, em certos casos os navios teriam de fazer desvios consideráveis - com custos superiores e prazos de entrega mais longos.
Lições para a política energética europeia
A crise actual expõe fragilidades conhecidas há anos: dependência excessiva de poucos países fornecedores, poucos corredores de passagem centrais e forte ligação a combustíveis fósseis. Os Estados da UE já reagem com várias abordagens:
- expansão de terminais de GNL no Mar do Norte e no Mar Báltico
- mais contratos de longo prazo com países produtores diversificados
- aceleração da expansão da energia eólica e solar
- programas de poupança de energia na indústria e nos agregados familiares
Para os consumidores na Alemanha, a crise de Ormuz significa: o risco directo de um corte súbito no gás é menor do que em Itália ou na Bélgica, mas saltos de preços nos mercados energéticos dificilmente podem ser excluídos. Por isso, as empresas recorrem cada vez mais a contratos a prazo para manter previsibilidade nos custos.
Para a política e a economia, o bloqueio funciona como mais um alerta. Mesmo que o conflito no Golfo abrandar dentro de algumas semanas, fica a conclusão: um abastecimento de energia dependente de poucos estreitos marítimos permanece vulnerável. Quanto mais a Europa diversificar fontes e quanto mais depressa reduzir o consumo de combustíveis fósseis, menor será a alavanca que crises como a interrupção de Ormuz podem exercer.
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