A fase Bravo do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais começa esta sexta-feira num contexto exigente: reivindicações dos bombeiros, limitações operacionais identificadas nos helicópteros Black Hawk da Força Aérea e um aumento muito significativo do número de fogos rurais e da área ardida já acumulada.
Mais incêndios e mais área ardida no arranque de 2026
Os primeiros meses do ano deixam sinais pouco animadores. Até 15 de abril, a GNR contabilizou 1665 incêndios rurais, responsáveis por 7675 hectares consumidos. No mesmo intervalo de 2025, os registos apontavam para 598 ocorrências e 3418 hectares de área ardida.
Combustível florestal e ignições: o foco da preocupação
O quadro torna-se ainda mais delicado por causa da carga de combustível disponível no terreno. “Há cerca de 40 mil hectares de floresta por limpar, sobretudo entre Coimbra e Leiria”, alerta Paulo Fernandes, investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro especializado em incêndios. Sem dramatizar, deixa um aviso: “Praticamente só os caminhos foram limpos. O grande problema continua a estar nas ignições que precisam de ser diminuídas.”
A informação reunida até agora indica que cerca de dois terços dos incêndios registados este ano começaram com recurso negligente ao fogo, em especial em queimas e queimadas que saíram do controlo. Desde o início do ano, a GNR deteve 75 pessoas em flagrante delito por suspeitas relacionadas com fogo posto. Para Paulo Fernandes, “é fundamental que a primeira intervenção seja musculada, para evitar a propagação dos incêndios ou reativações”.
Black Hawks prontos?
A poucos dias do reforço do dispositivo, surgem também interrogações sobre a operação dos novos helicópteros Black Hawk da Força Aérea, que serão, pela primeira vez, empenhados no combate direto aos incêndios rurais. À margem de um exercício em Viseu, o comandante nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, reconheceu “dificuldades na manobra de recolha de água” por parte dos aparelhos, que dispõem de depósitos com capacidade para largar cerca de 2950 litros.
Ao Expresso, o coronel Abel Oliveira, porta-voz da Força Aérea, desvaloriza o impacto dessas limitações. “Estamos num processo de treino exigente, mas saberemos cumprir a missão com padrões de segurança e eficiência”, assegura.
No total, estão previstos 33 meios aéreos, mas persistem constrangimentos na base aérea de Vale de Cambra, que deveria entrar em funcionamento. A Autoridade Nacional da Aviação Civil não respondeu às perguntas do Expresso sobre esta infraestrutura, que integra o conjunto de 24 bases que, a partir desta sexta-feira, devem iniciar operações.
Governo e GNR já alertaram para a possibilidade de 2026 vir a ser “um ano muito difícil”
A fase Bravo arranca com 21 helicópteros e 12 aviões que, de acordo com a diretiva operacional consultada pelo Expresso, devem ser acionados até dois minutos depois do alerta. No terreno, estarão igualmente 2599 viaturas, integradas na constelação de unidades da Proteção Civil.
2026 tem sido, entretanto, um ano marcado por forte tensão social e negocial no setor da proteção civil. Bombeiros sapadores e voluntários mantêm um calendário de protestos centrado na revisão de carreiras, salários e condições de trabalho.
Bombeiros desmotivados
“Há muita preocupação e bastante desmotivação nos quartéis”, admite João Marques, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Voluntários, que representa as corporações responsáveis por 8532 dos 11.955 operacionais mobilizados nesta fase.
Segundo João Marques, o ambiente de crispação agravou-se nas últimas semanas. “Dentro dos quartéis há desânimo e muitos problemas por resolver, mas os bombeiros têm cumprido o seu papel”, sublinha. As conversações entre sindicatos, associações de bombeiros e o Ministério da Administração Interna - que não respondeu às questões do Expresso - prosseguem na próxima semana, apesar de estarem apontadas para conclusão em abril. Em cima da mesa estão também dificuldades financeiras das corporações, pressionadas pelo aumento dos custos com combustível, equipamentos e manutenção.
O Governo aponta limitações orçamentais, enquanto sindicatos e associações avisam para o risco de abandono da profissão, precisamente quando o país entra num período de verão com potencial severidade no combate aos incêndios.
Ataque inicial, novas ferramentas e previsões meteorológicas
A diretiva operacional de 2026 volta a reforçar que o ataque inicial é determinante. “Os primeiros 90 minutos são considerados críticos para controlar os incêndios antes de ganharem dimensão”, indica o documento, acrescentando que “o sucesso mede-se pela resolução do incêndio dentro desse período”.
O plano inclui novas soluções tecnológicas e operacionais, entre as quais análise de risco sustentada em dados meteorológicos e no comportamento do fogo, recurso a drones e preparação antecipada de operações noturnas.
Do ponto de vista meteorológico, os cenários ainda deixam alguma incerteza. Mário Marques, climatologista especializado em previsões de longo prazo, antecipa “um verão tropical, mas sem calor extremo persistente, com oscilações capazes de trazer precipitação e trovoadas”. Ainda assim, tanto o MAI como a GNR já alertaram para a possibilidade de 2026 vir a ser “um ano muito difícil” no combate aos incêndios rurais.
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