Apesar da chuva que caiu nos últimos dias, o cenário continua a ser encorajador nas principais zonas produtoras - Fundão, Alfândega da Fé e Resende.
Tudo aponta para que 2026 venha a ser uma das melhores campanhas de cereja dos últimos anos, tanto pela quantidade como pela qualidade do fruto nestas regiões. Ainda assim, a precipitação recente provocou estragos na cereja precoce. Mesmo com perspetivas globalmente positivas, os produtores continuam com o "coração nas mãos" perante a instabilidade do tempo.
No Fundão, os efeitos do mau tempo já se fizeram sentir. João Nuno, presidente da Junta de Freguesia de Alcongosta - onde se realiza a Festa da Cereja - contou que a chuva "estragou" a cereja precoce no arranque de uma campanha que se prolonga por dois meses. "Já se perdeu 70% da cereja de início de campanha. Rachou, perdendo valor comercial", afirmou o autarca.
O dobro do ano passado
Em Alfândega da Fé, a cereja temporã, que amadurece mais cedo, apresenta boa qualidade, de acordo com o presidente da Cooperativa Agrícola local, Luís Jerónimo, embora "teme-se que as trovoadas com chuva intensa causem danos no fruto". Este ano, a maturação adiantou-se duas a três semanas, o que levou a acelerar a apanha. "Veio mais cedo por causa da temperatura mais amena da primavera. Em 2024 e 2025, tivemos meses de fevereiro quentes, mas depois a temperatura arrefeceu muito e contribuiu para a quebra da produção", explicou.
Sendo o maior produtor de cereja do concelho, Jerónimo prevê colher 20 toneladas, o dobro do ano passado. "Não é usual a maturação ser tão cedo. Se a chuva não estragar, o fruto terá muita qualidade", perspetiva. Depois de dois anos que classifica como "péssimos", os produtores esperam "algum alívio em 2026".
A cereja precoce tem vindo a ganhar procura e, por norma, alcança preços mais elevados, o que tem levado os produtores de Alfândega da Fé a investir em novas variedades. "Porque o preço é melhor, ainda que, este ano, como há mais quantidade, o valor baixe", acrescentou. Nesta fase, o valor pago ao produtor oscila entre 4,5 e 5,5 euros por quilo.
Em Resende, também se antecipa uma campanha fora do comum "em qualidade, como sempre, e este ano com muita quantidade", segundo o presidente da Câmara. Fernando Silvério admite que a chuva tem dificultado a colheita, "porém, para já, sem pôr em risco a qualidade".
Abono de família
Neste concelho, muitas explorações têm na cereja uma das suas principais atividades económicas, gerando trabalho temporário durante o período de colheita. A produção média anual ronda as cinco toneladas e corresponde a 30% do Norte.
Já no Fundão - a maior zona produtora de cereja em Portugal - 2026 poderá apresentar resultados bastante superiores aos dos últimos três anos. Na campanha atual, estima-se uma colheita entre 1200 e 1300 toneladas, quase o dobro das 700 toneladas de 2025, graças a um inverno e a uma floração favoráveis. Ainda assim, a chuva e o granizo afetaram as variedades mais precoces.
Além da Cerfundão (cooperativa onde os agricultores podem entregar a produção para comercialização), existem em Alcongosta, núcleo central desta fileira na região, quatro ou cinco empresas a vender para as grandes superfícies comerciais.
"Cerca de 80% da população da freguesia ou vive das cerejas ou tem-nas para vender. Há dezenas de produtores", sublinhou João Nuno, recordando que a Festa da Cereja "é um dos momentos altos para escoar a colheita". Mantém-se também o tradicional Leilão da Cereja, no Fundão, no próximo dia 18, que assinala o arranque da campanha.
Saber mais
22.º do Mundo
Em Portugal, a área de cerejeiras ronda os 6450 hectares. Estamos no 22.º lugar em termos de produção de cereja a nível mundial. A produção média anual nacional anda entre 19 mil e 20 mil toneladas, valor que varia muito consoante as condições climatéricas.
Quebras em 2025
Em 2025, no Fundão a quebra de produção rondou os 40% e, em Alfândega da Fé, foi de 60%.
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