Quem recorre frequentemente ao arroz não está a ingerir apenas hidratos de carbono e fibra: em determinadas condições, pode também estar a consumir arsénio. Esta substância existe naturalmente no solo e na água, mas pode acumular-se no organismo e, a longo prazo, favorecer problemas de saúde. Investigadores testaram agora um modo de cozedura que reduz de forma significativa o teor de arsénio no arroz, sem “lavar” por completo os nutrientes.
Porque é que o arroz consegue absorver tanto arsénio
O arsénio ocorre naturalmente em rochas e solos. Com a chuva e a erosão, parte desse arsénio pode ser arrastado para aquíferos e para águas de superfície. E é aqui que surge o ponto crítico: o arroz desenvolve-se em ambientes alagados.
Em arrozais inundados, as plantas ficam continuamente expostas a água com arsénio. A planta absorve a substância pelas raízes, deposita uma parte no grão - e é esse grão que acaba no prato, seja sob a forma de arroz branco ou de arroz integral.
Comparado com outros cereais, como o trigo ou a aveia, o arroz tende a captar arsénio com maior facilidade. Por isso, as autoridades de controlo dão-lhe atenção reforçada. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) associa a ingestão de arsénio inorgânico a um risco acrescido de vários tipos de cancro, sobretudo na pele e no pulmão. Também se discutem danos nos vasos sanguíneos e possíveis efeitos no sistema nervoso.
“O arroz é um alimento base em todo o mundo - precisamente por isso, qualquer redução do teor de arsénio tem grande importância para a saúde de muitas pessoas.”
Para limitar a exposição, existem limites legais claros na UE: no arroz branco, o valor-limite é de 0,15 miligramas de arsénio por quilograma; no arroz integral, de 0,25 miligramas por quilograma. Estas regras orientam a produção e a comercialização. No entanto, no dia a dia da cozinha, continuam a faltar na Europa recomendações concretas sobre como cozer o arroz de forma ideal para reduzir o arsénio.
O que valem, na prática, as dicas do TikTok e afins
Nas redes sociais circulam recomendações de todo o tipo: lavar o arroz várias vezes, deixá-lo de molho durante a noite, cozer sem escorrer, ou optar por uma panela de arroz. As conclusões são contraditórias - desde “resolve tudo” até “não faz diferença”.
A agência norte-americana FDA analisou com mais detalhe alguns métodos comuns. A sua recomendação passa por cozer o arroz com muita água: seis a dez partes de água para uma parte de arroz. No fim, a água excedente deve ser escorrida.
Cozer em muita água: eficaz contra o arsénio, fraco na preservação de nutrientes
Este método clássico “à massa” funciona: o teor de arsénio pode baixar cerca de 40 a 60%. O arsénio passa para a água de cozedura e vai pelo ralo quando se escorre.
O problema é que, ao mesmo tempo, perdem-se nutrientes relevantes. Segundo a FDA, os níveis de
- folato (uma forma de ácido fólico),
- ferro,
- niacina (vitamina B3)
- e tiamina (vitamina B1)
caem aproximadamente 50 a 70%. Para quem usa o arroz como fonte regular de nutrientes, isto significa abdicar de uma parte considerável do valor nutricional.
Também é comum - mas frequentemente sobrevalorizado - limitar-se a lavar o arroz antes de cozer. De acordo com a FDA, a lavagem reduz apenas de forma mínima o teor de arsénio e, ainda assim, pode remover vitaminas e minerais presentes na superfície dos grãos. O benefício global para a saúde acaba por ser limitado.
“Lavar o arroz, por si só, não chega - e cozer numa panela gigantesca com muita água arrasta vitaminas a mais.”
O método de “pré-escaldamento e cozedura por absorção”: menos 73% de arsénio
Uma equipa de investigadores da Universidade de Sheffield avaliou uma técnica de cozedura que oferece um compromisso muito mais equilibrado. O estudo foi publicado na revista científica Science of the Total Environment e ganhou destaque em vários meios de comunicação.
A ideia junta dois passos: fazer com que o arsénio passe cedo para a água e, depois, terminar a cozedura de forma suave, sem continuar a lixiviar nutrientes. Os investigadores descrevem a abordagem como um pré-escaldamento (blanching) seguido de cozedura por absorção.
Como aplicar o método passo a passo
No quotidiano, é fácil de fazer e não exige equipamento específico:
- Meça o arroz e passe-o rapidamente por água fria para remover poeiras superficiais (opcional).
- Coloque o arroz em bastante água limpa e leve ao lume até ferver.
- Deixe ferver vigorosamente durante cinco minutos.
- Escorra totalmente a água e deite-a fora - é aqui que sai uma grande parte do arsénio dissolvido.
- Junte água fresca, agora apenas a necessária para ser absorvida durante a cozedura (consoante a variedade, cerca de 1,5 a 2 vezes a quantidade de arroz).
- Coza em lume médio, com tampa, até a água ser absorvida e o arroz atingir a textura desejada.
O resultado: em média, o teor de arsénio diminui 73% no arroz branco e 54% no arroz integral. Em paralelo, a maior parte dos nutrientes fica melhor preservada do que no método de “muita água”. Em particular, o zinco - importante para o sistema imunitário e o metabolismo - mantém-se, em grande medida, no grão.
“Com apenas cinco minutos extra ao lume, é possível baixar claramente o arsénio no arroz - sem o transformar num deserto de nutrientes.”
Que tipos de arroz e que grupos estão mais expostos
A quantidade de arsénio varia bastante consoante a região de cultivo e a variedade. O arroz integral, em regra, contém mais arsénio do que o arroz branco, porque as camadas externas do grão tendem a concentrar mais resíduos. Ao mesmo tempo, são precisamente essas camadas que fornecem fibra e minerais - um conflito clássico entre risco e benefício.
Quem come arroz apenas de vez em quando não precisa de entrar em alarme. O tema torna-se mais relevante para quem consome produtos de arroz com muita regularidade:
- crianças que recebem frequentemente bolachas de arroz ou papa de arroz,
- adultos que comem arroz várias vezes por semana como acompanhamento,
- pessoas que, por razões culturais ou pessoais, dependem muito do arroz como principal fonte de hidratos de carbono,
- consumidores habituais de bebidas de arroz e massas de arroz.
Nestes casos, qualquer estratégia que reduza a exposição merece atenção - sobretudo quando a ingestão se mantém elevada durante anos.
Dicas práticas para o dia a dia com arroz
A nova técnica de cozedura é uma peça importante, mas não substitui o bom senso. Quem quiser ser mais cauteloso pode combinar várias medidas:
- alternar variedades (por exemplo, basmati, jasmim, parboilizado e integral);
- diversificar as fontes de hidratos de carbono, incluindo batatas, massa, milho-miúdo, bulgur ou cuscuz;
- para bebés e crianças pequenas, escolher produtos explicitamente testados quanto ao arsénio;
- evitar ter arroz todos os dias como componente principal de todas as refeições;
- quando o consumo é frequente, aplicar o método de pré-escaldamento e cozedura por absorção.
Se usar uma panela de arroz, dá para adaptar parcialmente: pré-coza o arroz cinco minutos numa panela, escorra a água, transfira o arroz para a panela de arroz com água fresca e deixe terminar a cozedura.
O que o arsénio faz no organismo - e porque é que a dose importa
No corpo, o arsénio interfere com vários processos metabólicos. O arsénio inorgânico, que pode estar presente no arroz, está associado a:
- maior risco de cancro (entre outros, pele, pulmão, bexiga),
- danos nos vasos sanguíneos,
- alterações do sistema nervoso,
- efeitos negativos no desenvolvimento infantil em exposições elevadas e prolongadas.
Intoxicações agudas por consumo normal de arroz na Europa são extremamente raras; o foco está na soma de pequenas doses repetidas ao longo de anos. É por isso que as autoridades procuram reduzir a carga em toda a cadeia - do campo à panela.
Na prática, isto significa que ninguém precisa de banir o arroz da cozinha. Quem quiser continuar a comer o seu caril preferido ou sushi pode fazê-lo. Com uma cozedura ajustada e alguma variedade nos acompanhamentos, a ingestão a longo prazo pode baixar de forma clara.
Verificação de conhecimento: o que significa “arsénio inorgânico”
Em muitos textos aparece a distinção entre arsénio orgânico e inorgânico. As formas orgânicas existem, por exemplo, em certas algas marinhas e tendem a ser consideradas menos preocupantes. Já o arsénio inorgânico está mais ligado às formas de maior risco e é aquele a que os limites legais se referem.
No arroz, o principal tema é o arsénio inorgânico proveniente do solo e da água. Quando se avalia contaminação, as análises procuram especificamente esta forma. Ao ler estudos ou relatórios de autoridades, vale a pena confirmar estes termos para interpretar correctamente os números.
O que chama a atenção é que medidas simples em casa conseguem efeitos grandes. O método apresentado não altera o sabor do arroz, acrescenta apenas alguns minutos ao processo e reduz um risco real que muita gente nem imagina que possa estar no prato.
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